A Mulher Esqueleto

Conto Innuit (esquimós)

Encarando a natureza da vida-morte-vida no AMOR.

Os lobos são bons em relacionamentos, se parar para perceber verá que são profundos seus vínculos, é frequente que passem a vida toda juntos, a produção desse vínculo faz com que atravessem inversos rigorosos, primaveras abundantes, longas caminhadas, novas ninhadas, danças tribais e cantos em coro. O ser humano tem necessidades como essas. Embora os lobos saibam instintivamente como ter lealdade de vínculos de confiança e devoção, nós humanos enfrentamos dificuldades com essas questões. Para entender a integridade dos fortes vínculos entre os lobos de maneira arquetípica concluiríamos que isso vem de sua submissão à antiga natureza da vida-morte-vida. A vida-morte-vida é um ciclo de animação, desenvolvimento, declínio e morte que sempre se faz seguir uma reanimação. Esse ciclo afeta toda a vida física e todas as facetas da vida psicológica. Tudo, o sol, as estrelas, a lua, os seres humanos, as células, os átomos.

Diferente do ser humano o lobo não considera que os altos e baixos da vida, quer de energia, de poder, de alimento, de oportunidade sejam espantosos ou punitivos. Os picos e os vales simplesmente existem e é preciso passar por eles. A natureza instintiva tem capacidade miraculosa de sobreviver a cada dádiva, seja ela boa ou menos boa, e ainda manter o relacionamento com o self e com o outro. Entre eles, esse ciclo da vida-morte-vida da natureza e do destino é encarado com elegância, inteligência e persistência para fica junto do outro e viver por muito tempo e o melhor possível. Para que nós seres humanos possamos viver dessa forma, que é a mais sábia, duradoura, é preciso par, teremos de dormir com a morte.

A história da mulher-esqueleto é uma história de caça a respeito do amor. Nas histórias do norte o amor não é um encontro romântico entre dois amantes, as histórias de lá versam sobre o amor como a união entre dois seres cuja comunicação com o mundo da alma e a participação no destino como uma dança com a vida e a morte. Pra compreender essa história temos de entender que lá num dos ambientes mais rigorosos o amor não significa flerte ou uma procura por prazer para o ego, e sim um vínculo visível e composto de força psíquica da resistência, uma união que de seres que são consideradas ANGAKOK, mágica em si mesma, uma relação que permite que “os poderes que existem” se tornem conhecidos aos dois indivíduos.

Para que essa relação seja possível, existem algumas exigências, para se criar esse amor duradouro, convida-se mais um parceiro para a união. Esse terceiro é a Mulher-Esqueleto, ela é chamada de morte e nesse sentido ela é a natureza da vida-morte-vida. É uma divindade e desempenha papel de oráculo que sabe quando chegou a hora de um ciclo começar e terminar. Ela é o aspecto selvático do relacionamento, dos quais muitos têm pavor. Quando se perde a fé na transformação os ciclos naturais de progresso e desgaste são temidos.

No começo da história, a Mulher-Esqueleto é jogada por seu pai, do alto de um penhasco até o mar, e devorada por peixes que lhe arrancam a pele, a carne, os olhos e ela vira um esqueleto, no léu da própria sorte. Um dia um pescador veio pescar e não sabia que ali não era mais um lugar de pesca, sob a alegação de ser mal-assombrada. O anzol do pescador foi descendo e prendeu nos ossos das costelas da Mulher-Esqueleto. O pescador pensou “Oba, agora peguei um grande de verdade!”. Na sua imaginação ele já via quanto tempo duraria a carne e que ficaria um longo tempo sem a obrigação de pescar. E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta do anzol o mar se encapelou com uma espuma agitada e o caiaque balançava pois aquela que estava lá embaixo lutava para se soltar, e quanto mais ela lutava mais se enredava na linha. Quando tomou noção do tamanho do esqueleto que estava na beira da praia o seu coração afundou até os joelhos e seus olhos se esconderam apavorados no fundo de sua cabeça. Tentava se livrar dela e não importava o que fizesse, ela o perseguia e seus braços se agitavam coo e quisessem agarrá-lo e leva-lo para as profundezas. O tempo todo ela continuou atrás dele, até quando ele finalmente chegou ao seu iglu e se jogou dentro do túnel para dentro, ofegante e soluçante ele ficou ali deitado no escuro com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Ali se sentia seguro, graças aos deuses.

Quando ele acendeu sua lamparina ali estava ela, jogada num monte no chão de neve, toda emaranhada. Ele não soube dizer o que aconteceu mas as feições da Mulher-Esqueleto haviam suavizado, talvez fosse o fato de ser um homem solitário mas o fato é que sua respiração ganhou um quê de delicadeza e baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.

Oh, na, na, na. Cantava o pescador para desenrolá-la e aquecê-la, já que seus ossos eram iguaizinhos aos de um ser humano. E ela, não pronunciava uma palavra – não tinha coragem – temia que o caçador a levasse para fora e a jogasse lá embaixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos. O homem sentiu sono e dormiu, logo estava sonhando. Às vezes acontece de uma lágrima escapar dos olhos dos seres humanos quando eles dormem, não se sabe o que provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio e foi isso o que aconteceu com ele. A mulher-Esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo e sentiu uma enorme sede, se aproximou e tomou a lágrima e aquela única lágrima saciou sua sede de muitos anos. Enquanto ele dormia ela retirou de seu coração aquele tambor forte e começou a batucar BOM! BOMM! BOM, BOOMM! E enquanto marcava o ritmo começou a cantar em voz alta: Carne, Carne, Carne, Carne. E quanto mais cantava mais seu corpo se revestia de carne e mais saudável ela ficava. Quando estava pronta ela também cantou para despir o pescador e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele e foi assim que acordaram abraçados, enredados, mas agora de outro jeito, de um jeito duradouro e verdadeiro.

 

A incapacidade de encarar a Mulher-Esqueleto e desenredá-la é o que provoca muitos fracassos nos relacionamentos. Para amar é preciso não só ser forte, mas também sábio. Como vemos na história, se quisermos ser alimentados por toda a vida precisamos encarar de desenvolver um relacionamento com a natureza da vida-morte-vida. Essa história é uma imagem adequada para o amor moderno, o medo da natureza vida-morte-vida, em especial ao aspecto da morte. Em grande parte da cultura ocidental, o personagem original da natureza da morte foi encoberto por vários dogmas e doutrinas até o ponto em que se separou de sua metade, a vida. Fomos ensinados a nos mutilar acreditando na ideia de que a morte sempre vem acompanhada de mais morte, isso não é verdade, a morte está sempre no processo de incubar uma vida nova, mesmo quando nossa existência foi retalhada até os ossos.

Ao invés de encararmos esse arquétipo da morte e da vida como opostos, devemos vê-los como partes de si mesmo. Em vez de criticá-la, quem a conhece em seu ciclo completo respeita sua generosidade e suas lições.

A natureza da vida-morte-vida faz parte de nossa própria natureza, como uma autoridade interna que sabe os passos, que conhece a dança da vida e da morte.

Em todas as histórias há coisas que podem ser a refletir as enfermidades ou a saúde da nossa própria vida interior. Também nas lendas ocorrem temas míticos que podem ser considerados como descrições dos estágios e das instruções necessárias para manter o equilíbrio tanto no mundo objetivo quanto no subjetivo. E embora seja possível compreender essa história como símbolo do movimento de uma psique, creio que essa história tem maior valor quando é compreendida como uma série de tarefas que ensinam uma alma a amar outra profundamente. São elas a descoberta da outra pessoa como uma espécie de tesouro espiritual muito embora a principio não se perceba exatamente o que foi encontrado. Na maioria dos relacionamentos, em seguida vem a caça e a tentativa de ocultação, um tempo de esperanças e receios para os dois lados. Depois vem a tarefa de desenredar e compreender os aspectos da vida-morte-vida do relacionamento e a compaixão dessa tarefa. Segue-se a confiança que gera o relaxamento, a capacidade de descansar na presença do outro e da sua boa vontade, acompanhada de um período de compartilhamento de sonhos futuros, bem como de tristezas do passado, sendo esse o inicio da cura de ferimentos arcaicos relacionados ao amor. Finalmente o uso do coração para fazer brotar uma nova vida e a fusão do corpo e da alma.

Nesse momento da descoberta do tesouro o pescador não faz ideia de que pegou a criatura mais apavorante que jamais conheceu, de estar trazendo mais do que ele tem condição de manejar, ele não sabe que terá de se entender com a criatura que está a ponto de ter todos os seus poderes testados, é esse o estado de todos os apaixonados no inicio, são todos cegos como morcego.

O caçador é inocente, assim como muitos jovens ainda não sabem exatamente o que querem e é muito frequente que nos entregemos a fantasia de que seremos alimentados a partir da natureza profunda, por meio de um caso de amor, um emprego ou de dinheiro, e esperamos que isso dure muito tempo pra não ter que trabalhar. No fundo nós sabemos que nada de valor jamais surge dessa maneira, mas temos esse desejo assim mesmo.

O pescador considera que está apenas em busca de nutrição e de alimento quando na realidade está trazendo da profundezas a natureza feminina elemental por inteiro, a esquecida natureza da vida-morte-vida. Ela não pode ser ignorada. Ela sabe dizer quando chegou a hora de um lugar, uma coisa, um ato, um grupo, ou um relacionamento morrer. Esse dom, essa sensibilidade psicológica, aguarda aqueles que se disponham a soerguê-la ao nível do consciente pelo ato de amar o outro. Uma parte de cada homem e de cada mulher resiste ao reconhecimento de que a morte tem que participar de todos os relacionamentos de amor, fingimos que podemos amar sem que morram nossas ilusões acerca do amor, fingimos ir em frente e sem que morram nossas expectativas superficiais. O que morre? Morrem as ilusões, as expectativas, a voracidade de querer tudo, de querer que tudo seja só lindo, tudo isso morre. Não aceitar a natureza da vida-morte-vida na relação podem causar muitos problemas, fazendo com que a força emocional se transforme num esqueleto privado de um amor ou alimento autêntico. Como a mulher é uma guardiã dos ciclos, os ciclos de vida-morte-vida são o alvo principal de sua preocupação. Já que pouca vida nova pode surgir sem que ocorra o declínio na que havia antes. O desejo de forçar o amor a prosseguir somente no seu aspecto positivo faz com que o amor acabe morrendo, e para sempre. O desafio do pescador é o de encarar A Morte, seu abraço e seus ciclos. A morte não vai se soltar A Morte não vai satisfazer desejos por nada, ela vem quer queiramos quer não, pois sem A Morte não pode haver um real conhecimento da vida e sem esse conhecimento não pode haver lealdade, amor verdadeiro.

Amar significa ficar com. Significa emergir de um mundo de fantasia para um mundo em que o amor duradouro é possível, cara a cara, ossos a ossos, um amor de devoção. Amar significa ficar quando cada célula nos manda fugir.

A natureza da morte tem o estranho hábito de surgir nos casos de amor exatamente quando temos a sensação de ter conquistado alguém, exatamente quando sentimos que fisgamos um peixe grande. É nesse instante que se desenvolve mais o pensamento tortuoso a respeito dos motivos pelos quais o amor não pode, não deve e não vai dar “certo”. Trata-se de um esforço para se tornar invisível. Invisível a Mulher-Esqueleto. A psique racional vai pescar à procura de algo que seja profundo e não só fisga o que procurava como fica assustada que mal pode tolerar. Os amantes tem a sensação de que algo os persegue, pensam que é o outro, na realidade é a Mulher-Esqueleto, quando colocamos nossa intenção de nos relacionarmos com outro ser humano de um modo especial a Mulher-Esqueleto é chamada.

E quando ela aparece ela é temida, tenta-se fugir de todas as formas e quanto mais se corre de um relacionamento, paradoxalmente mais essa relação ganha vida. Esse fenômeno é uma das principais tragicomédias da vida rs

No amor ocorre o processo de querermos só a beleza, mas acabamos tendo de encarar a “perversa” Empurramos ela para longe de nós e ela nos acompanha, ela é a grande mestra que sempre dissemos que queríamos. Essa é a mestra que cabe a todos, por mais que não queiram. Há um ditado que diz que quando o aluno está pronto, o professor aparece. Isso quer dizer que o professor chega quando a alma está pronta e não o ego, o professor vem quando a alma chama – e graças a Deus que isso acontece, pois o ego nunca está perfeitamente pronto. Somos abençoados já que a alma continua transmitindo seu desejo e ignorando as opiniões constantes do ego.

Há uma enorme diferença entre a necessidade de solidão e renovação e o desejo de “dar um tempo” tão comum nos namoros modernos para evitar a ligação com a Mulher-Esqueleto. No entanto, a ligação no seu sentido de aceitação da natureza e de permuta com ela é o passo seguinte na direção de um fortalecimento da nossa capacidade para amar. Todos os “ainda não estou pronto”, todos os “preciso de tempo” são compreensíveis por um curto período. A verdade é que não existe a sensação de estar “completamente pronto” ou de ser aquela a “hora certa”. Como em qualquer mergulho no inconsciente chega uma hora que precisamos saltar no abismo. Se não fosse assim não teríamos criado as palavras herói, heroína ou coragem.

Se rejeitada, a Mulher-Esqueleto afunda nas aguas, mas ela surgirá novamente e sairá no nosso encalço insistente. É essa a sua função. A nossa função é a de aprender. Se quisermos amar, não há como evitar esse aprendizado.

Se for ao amor que estivermos nos dedicando, muito embora nos sintamos apreensivos ou assustados, estaremos dispostos a ver como tudo isso vai funcionar junto. Estaremos dispostos a tocar o não-belo no outro e em nós mesmos

O que é o não belo? Nosso próprio anseio secreto de sermos amados é o não belo. Desamar e Mal-amar são o não belo. Nossa negligência na lealdade e na devoção não é bela. Nossa sensação de isolamento da alma é sem graça. Nossas incompreensões, falhas e imperfeições psicológicas bem como nossas fantasias infantis são o não-belo.

Quando o pescador solta a Mulher-Esqueleto, ele começa a ter conhecimento “prático” das articulações da vida e da morte. O esqueleto é uma excelente imagem para a natureza da vida-morte-vida. Como imagem psíquica o esqueleto é composto de centenas de peças compridas e redondas, grandes e pequenas, de formato estranho e em permanente relação harmoniosa umas com as outras Quando um osso gira, os restantes giram, mesmo que de modo imperceptível. Quando a morte se movimenta, os ossos da vida também a seguem.

O medo é uma desculpa insuficiente para não realizar essa tarefa. Todos têm medo, não é nenhuma novidade, quem está vivo tem medo. Para o povo Nuit o corvo é uma criatura voltada para o apetite. Ele precisa apenas de prazer e tenta evitar toda a incerteza assim como os temores gerados por ela. O Ego-Corvo teme que a paixão termine. Ele tem medo e tenta evitar o fim da refeição, o fim do fogo, o fim do dia. Ele passa a agir com astúcia sempre prejudicando a si mesmo, pois quando se esquece da própria alma, ele perde seu poder.

Três aspectos diferenciam a vida a partir da alma, da vida, a partir do ego apenas. Eles são a capacidade de pressentir novos caminhos e aprendê-los, a tenacidade necessária para atravessar uma fase difícil e a paciência para aprender o amor profundo com o tempo. Uma paciência desenfreada, a paciência não é o forte do ego. Nem  o relacionamento duradouro. É preciso um coração disposto a morrer, renascer, morrer e renascer repetidamente.

Como um homem aprende essas coisas? Como qualquer um pode aprendê-las? Basta entrar em diálogo direto com a natureza da vida-morte-vida, prestando atenção à voz interna que não é a do ego. Faça perguntas para a natureza sobre o amor e sobre amar, depois ouça as respostas com atenção.

Para encarar a mulher-esqueleto, ninguém precisa assumir o papel do herói intergaláctico, entrar em conflito armado, nem mesmo arriscar a vida na selva. Basta que se queija desemaranhá-la. Esse poder do conhecimento da natureza aguarda a todos que desejam superar a fuga e a necessidade de se sentir seguro e confortável.

Voltar a uma inocência alerta não exige tanto esforço, como o de mover um monte de tijolos de um lugar para outro, mas que fiquemos parados o tempo suficiente para que o espirito nos encontre. Diz-se que tudo que procuramos também está a nossa procura; que, se ficarmos bem quietos o que procuramos nos encontrará. Ele está esperando por nós há muito tempo. A inocência é com frequência o nome dado a uma curandeira, ou benzedeira, a que cura os outros de lesões ou danos. Ser inocente significa ser capaz de ver com nitidez qual é o problema e corrigi-lo. Essas são as poderosas imagens por trás da inocência. Ela é considerada não só uma atitude de evitar o dano aos outros ou ao próprio Self, mas também a capacidade de curar e recuperar a si mesma e aos outros. Pense nisso, veja as vantagens para todos os ciclos do amor.

Dentro da psique masculina, há uma criatura, um homem incólume, que acredita no bem, que não tem duvida acerca da vida, que não só é sábio como não tem medo de morrer. Alguns o identificam com o self guerreiro, mas se trata de um Self do espirito, do espirito jovem que continua a amar independente de ter sido atormentado, ferido e exilado, porque o seu próprio modo ele cura a si mesmo, se recupera.

A única confiança necessária é a de saber que, quando ocorre um final, vai surgir um novo começo.

Enquanto o pescador dorme a lágrima rola e a Mulher-Esqueleto nutre-se da lágrima. As lágrimas detêm o poder criativo. Nas mitologias, o surgimento de lágrimas provoca uma criação imensa e uma união sincera. A lágrima da paixão e da compaixão surge na maioria das vezes depois da descoberta acidental do tesouro, depois da perseguição apavorante. É uma combinação que gera a exaustão, a derrubada das defesas, o exame de si mesmo, despir-se até os ossos. Tudo isso faz com que a pessoa investigue o que a alma realmente quer e chore pela perda e pelo amor de ambos. A lágrima de quem sonha surge quando aquele que virá a ser um amante se permite sentir seus próprios ferimentos e curá-los, quando ele se permite ver a autodestruição provocada pela perda da sua fé na bondade do self, quando ele se sente isolado do ciclo protetor. É que ele chora, por sentir sua solidão, uma imensa saudade daquele local psíquico, daquele saber primitivo.

Talvez não exista nada que uma mulher deseje mais do que um homem do que a atitude de ele desmanchar suas projeções e encarar seu próprio ferimento. Quando ele enfrenta o ferimento as lágrimas surgem naturalmente e suas lealdades internas e externas se tornam mais fortes e deixa de procurar a mulher como seu analgésico.

O centro fisiológico e psicológico é o coração, no hinduísmo o ele é o centro nervoso que abrange o sentimento por outro ser humano, o sentimento por si mesmo, pela terra e por Deus. É o coração que nos permite amar como ama uma criança; totalmente, sem reservas e sem qualquer capa de sarcasmo. Quando a Mulher- Esqueleto se vale do coração do pescador ela está usando o centro motor da psique inteira, o único órgão de real importância, o único capaz de gerar sentimento puro e inocente. Diz-se que a mente que pensa e cria, essa história afirma o contrário, que o coração que pensa e convoca as moléculas, átomos, sentimentos e o que mais seja necessário até um único lugar a fim de gerar a matéria que realize a criação da Mulher-Esqueleto.

A história contém uma promessa: permita que a Mulher-Esqueleto se torne mais palpável em sua vida e ela em troca engrandecerá sua vida. Quando a libertamos do seu estado emaranhado e confuso e a percebemos como mestra e amante ela se torna uma aliada e uma parceira.

A história também ilustra um duplo poder que vem da psique através dos símbolos do tambor e do canto. Nas mitologia, as canções cram ferimentos e são usadas para atrair a caça. Alivia-se a dor; alentos mágicos restauram o corpo. Diz-se que toda a criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada. A música, como o tambor, cria uma consciência diferente, um estado de transe, de oração; Todos os seres humanos e muitos animais são suscetíveis a terem sua consciência alterada pelo som.

Através de seus corpos, as mulheres vivem muito de perto da natureza da vida-morte-vida. Quando as mulheres estão em pleno uso de sua mente instintiva, suas ideias e impulsos no sentido de amar, de criar, de acreditar, de desejar, nascem, cumprem seu tempo, fenecem e morrem, para renascer mais uma vez. Seria possível dizer que as mulheres põe esse conhecimento em prática no consciente e no inconsciente a cada ciclo lunar nas suas vidas. Para algumas essa lua que determina os ciclos está lá no céu. Para outras ela é a Mulher-Esqueleto que vive nas suas próprias psiques. A partir de sua própria carne e bem como dos ciclos constantes de enchimento e esvaziamento o vaso vermelho do seu ventre, a mulher compreende em termos físicos, emocionais e espirituais que os apogeus têm seu declínio e sua morte, e que o que sobra renasce de um jeito inesperado e por meios inspirados, só pra voltar ao nada e mais uma vez retornar em pleno esplendor. Como podemos ver, os ciclos da Mulher-esqueleto permeiam e perpassam a mulher inteira. Não pode ser diferente.

A energia, o sentimento, a intimidade, a solidão, o desejo, o tédio, todos aumentam e diminuem em ciclos relativamente comprimidos. Nosso desejo de proximidade e de separação, alterna ciclos de crescimento e declínio. A Natureza da V-M-V não só nos ensina a acompanhar esses ciclos na dança, mas nos mostra que a solução para o mal-estar está sempre no contrário. Portanto, novas atividades são a cura para o tédio. A intimidade é a cura para a solidão, a solidão é a cura para a sensação de falta de espaço. Sem o conhecimento dessa dança, a pessoa tem a tendência, durante vários períodos de águas paradas, a traduzir a necessidade de atividade nova e pessoal em gastos excessivos, em exposição a riscos, em escolhas irresponsáveis. É a solução dos que não sabem.

Ao aceitarmos que o mundo não é lindo, de que as chances são perdidas, de que as oportunidades surgem inesperadamente, de que esses ciclos de vida e morte prevalecem, quer queiramos quer não, se vivermos como respiramos, inspirando e soltando, não podemos errar.

Deduzimos na história de que a doação do corpo é uma das últimas fases do amor. É assim que deve ser. É om dominar os primeiros estágios do encontro com a natureza da V-M-V e deixar para depois as experiências práticas do corpo-a-corpo. Advirto as mulheres para que não aceitem um amante que salte de uma fisgada acidental para a doação do corpo. Insistam no cumprimento de todas as fases. Assim, a ultima fase vira por si só. A ocasião para a união dos corpos chegará na hora certa. Portanto, fazer amor é fundir a respiração e a carne, o espírito e a matéria. Um se encaixa no outro. Nessa história ocorre o acasalamento do mortal com o imortal, e isso também vale para um relacionamento amoroso que vá durar. Existe um vínculo imortal de alma para alma que mal conseguimos descrever, ou talvez que mal consigamos decidir, mas que vivenciamos em profundidade.

A história também nos fala de como entrar num relacionamento de enriquecedora cooperação com o que tememos. Ela é exatamente aquilo a que precisamos emprestar nosso coração. Quando o homem ou a mulher se funde com a Mulher-Esqueleto ficam mais íntimos dela, e isso faz com que ele conquiste a máxima intimidade com sua parceira. Para descobrir essa eminente conselheira da vida e do amor, basta que paremos de correr, que a desemaranhemos um pouco, que encaremos a ferida e nosso próprio anseio de compaixão, que dediquemos nosso coração inteiro a esse processo. É assim que o relacionamento amoroso deveria funcionar, com cada parceiro transformando o outro. A força e o poder de cada um são desembaraçados, compartilhados. Ele lhe dá seu tambor do coração. Ela lhe transmite o conhecimento dos ritmos e emoções mais complicados que se possa imaginar. Quem sabe o que os dois irão caçar juntos? Só sabemos que eles se nutrirão até o final dos seus dias.

Resenha de Bruna  Cardoso

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